Posts de Abril, 2008

Colocando o carro na frente dos bois

Abril 24, 2008

Tudo é muito legal, tudo é muito bonito, sem dúvida. A grande nação brasileira clama pela realização da longínqua Copa do Mundo em 2014 nas terras tupiniquins.

A idéia de ter um evento desse porte realmente seria de grande fator positivo para o desenvolvimento social da população, além da fatia nos cofres nacionais impulsionados pelo turismo.

E é certo que para a futura realização serão necessários homéricos investimentos na infra-estrutura decadente que existe atualmente no cenário nacional. Entretanto, uma grande dúvida surge neste momento: Se não aprendermos a técnica de plantar árvores de dinheiro, donde serão tirados tantos fundos para modernizar as instalações espalhadas pelo País? A Confederação Brasileira de Futebol e seu eterno presidente, Ricardo Teixeira, por acaso bancarão os custos para, por exemplo, reformar o Mane Garrincha? Ou vai auxiliar na reconstrução do Olímpico, ou Beira-Rio, ou do Morumbi, caso estes sejam realmente levados a baixo? Ou então investidores surgirão das ermas terras do velho continente atirando suas montanhas de dinheiro sem fim às contas dos organizadores?

É claro que a realização da Copa no Brasil trará inúmeros benefícios para o país, mas o buraco é mais embaixo. Quem garante que a mesma situação ocorrida ano passado com o Pan-americano, realizado no Rio, não irá se repetir em seis anos?

Teoricamente nos projetos do Pan tudo parecia perfeitamente cabível para a plenitude da realização. As obras terminariam com meses de antecedência, possibilitando diversos textos e possíveis adaptações no esquema; a orçada não ultrapassaria casas tão altas; e, os jogos entrariam para a história como os melhores já realizados em todos os tempos.

Na prática, as coisas foram um tanto diferente, e o bolso dos companheiros brasileiros teve que arcar com a festa. Faltando apenas algumas semanas para o início das celebrações, o caos estava instalado na Cidade da sétima maravilha do mundo, e o governo foi “convidado” a terminar o serviço inacabado.

Uma absurda cifra de 3,8 bilhões de reais foram gastos para construir vários elefantes-brancos espalhados pela capital fluminense, que hoje, quase um ano depois do término, várias entidades “brigam” para decidir quem tomará conta do pequeno brinquedo.

O Botafogo, por exemplo, se apoderou do Estádio João Havelange por um módico e simbólico valor; e a maioria das outras instalações, que ainda não têm seu “uso social” definido.

Pelo histórico brasileiro recente, fica claro que no final das contas o Governo Federal seria novamente convidado a intervir nas obras para a não-maculação do país na Copa, e mais uma vez, o dinheiro que poderia ser destinado para saúde, ou para a educação, será perdido com novos elefantes-brancos. Tudo é muito legal, tudo é muito bonito, mas estão colocando o carro na frente dos bois, e ninguém percebe.

A quintessência inexorável

Abril 17, 2008

Com nove anos de idade uma criança não tem responsabilidades ou preocupações. Ela não se angustia quando o dólar está em alta; quando territórios alheios são invadidos a bel prazer; ou quando o proeminente índice de violência que permeia nosso país atinge níveis tão abruptos. O bom desta idade é se preocupar apenas com a vitória no jogo do fim de semana e com a prova do dia seguinte.

A vida de um petiz é basicamente se divertir na maior parte do tempo, não possuindo empecilhos para seus devaneios pessoais, e aproveitar bem esse exíguo tempo livre dos grilhões das obrigações que incendeiam qualquer pessoa com mais de 20 anos.

Que atire a primeira pedra o jovem que nunca mentiu para faltar à escola, acreditando que este era o maior de todos os pecados capitais. Bela essa época, onde o infante intersecta o real do imaginário, a mentira do faz de conta; e não tem noção de seus atos. Afinal, está é a quintessência da juventude, e é sua obrigação ser inocente.

Em qualquer parte do mundo é completamente normal que uma criança faça de seu cotidiano um amálgama de práticas comuns de sua idade, além de não possuir capacidade cognitiva para reconhecer e entender os conceitos mais complexos que a vida nos proporciona. Menos em um lugar.

Com quase um décimo da população brasileira, e um sistema sócio-cultural espantosamente intrínseco, o Iêmen é uma dessas exceções às regras, que porfiam nos mais distantes confins do planeta.

Foi noticiado nesta semana pelos diversos veículos da mídia internacionais o caso da iemenita Nayud Mohamad Naser, que como qualquer outro casal, teve a permissão concedida por um tribunal local a realizar seu divorcio matrimonial. Apenas para entender, a jovem tem 8 anos de idade, e fora forçada a se casar pelo pai.

O absurdo não está na gritante aceitação, mesmo que tardia, da separação entre as partes do casal, mas sim na funambulesca incongruência em saber que tal falta de bom senso ainda existe nessa região. O absurdo está em saber que uma criança sem completar uma dúzia de primaveras foi obrigada, pelo seu gerador e o inepto ‘marido’, a realizar um dos mais antigos vínculos sociais da humanidade, sem ao menos ter idéia de sua importância e peso para a própria vida futura. O absurdo está em saber que em pleno século XXI, após o suposto fim do mundo, segundo Nostradamus, tão retrogradas legislações nacionais ainda insistem em retinir na retumbância de certos lugares.

A idéia neste momento não é ser xenófobo, ou apontar de fora os problemas que o país vive. Claro que são tradições, culturas e realidades completamente diferentes das brasileiras, e seria extremamente etnocêntrico bradar contra as instituições doutrinárias daquele lugar, sobrepujando suas questões de certo e errado; todavia, o bom senso transcende os limites geográficos, e deve ser aplicado por qualquer pessoa que se julgue inteligente o suficiente para distinguir o azul do vermelho.

A inocência lúdica talvez seja o pingo de facécia remanescente neste oceano que é o mundo moderno, e é dever do homem não permitir a reminiscência do vestígio de sua existência.

O Milagre da Biocombustão

Abril 15, 2008

Parece que foi ontem que o mundo mergulhou de cabeça nas questões ambientais e decidiu dar as mãos em favor dos biocombustíveis. De países visivelmente preocupados com o próprio umbigo, passamos a nos preocupar pro ativamente com o futuro do planeta, como uma equipe. Folclórico demais para ser verdade, o estardalhaço das preocupações ambientais foi tanto que quase maquiou o verdadeiro interesse por detrás do discurso renascentista: a inconveniente dependência do petróleo.

O biocombustível tornou-se o álibi perfeito. É uma fonte de energia renovável, diferentemente do petróleo, é derivada de produtos agrícolas e ainda poluem menos que os combustíveis fósseis. Rapidamente, alguns países da América Latina, Europa e Ásia, além de Austrália e Estados Unidos, passaram a cultivar e pesquisar voluptuosas técnicas para diminuir sua dependência do petróleo e do gás estrangeiro. No entanto, pouco se pensou se esse “messias” da política econômica e ambiental pode realmente salvar a humanidade de seus pecados.

De acordo com o relator especial da Organização das Nações Unidas (ONU), Jean Ziegler, “a produção em massa de biocombustíveis representa um crime contra a humanidade”. Em entrevista a uma rádio alemã, Ziegler explicou que a produção de combustíveis biológicos em larga escala reflete em impactos profundos nos preços mundiais dos alimentos. Isto explica, em parte, o aumento da crise gerada pelo aumento dos preços dos alimentos, gerando instabilidade política em inúmeros países.

Em meio a este atual palco de contraversão, algumas verdades são irrefutáveis. É notório que o atraente pacote de vantagens ambientais e econômicas da bioenergia repercutiu em absoluta explosão emocional por parte das entidades envolvidas. As profecias catastróficas de como o mundo perecerá com o Efeito Estufa trataram de mobilizar pesquisadores e defensores do meio-ambiente, e a concentração de petróleo em mãos pouco amistosas trataram de mobilizar os governos. Essa atmosfera de esperança e arrependimento tratou de contagiar, por fim, toda uma população.

Emoções à parte, o fato é que nenhuma das vertentes estudou racionalmente sobre o impacto desse tipo de combustível na prática. Exceções à parte, agora, os mesmos ambientalistas que se emocionaram com a chegada do biocombustível na Terra temem pelo impacto exorbitante da queimada de matérias primas, como a cana-de-açúcar. Os mesmos economistas que apostaram na libertação política do petróleo se deparam com a influência deste tipo de combustível nos preços dos alimentos.

Enquanto a população espera passivamente a concretização do milagre da bioenergia, talvez seja a hora de por os pés no chão e começar a discutir uma forma mais racional de explorar os biocombustíveis. Afinal, como já dizia um famoso filósofo de subúrbio, “tempo perdido nunca se recupera”.

Retrato de um “Leão” incompreendido

Abril 11, 2008

Termina no dia 30 de abril o prazo para Declaração do Imposto de Renda. A prestação de contas, além de subtrair grande parte das perspectivas financeiras, desafia matematicamente cada um dos 186 milhões de brasileiros.

Inicialmente, o Imposto de Renda (IR) é uma taxa cobrada por vários países, onde cada pessoa, ou empresa, é obrigada a deduzir uma dada porcentagem de sua renda média anual para o governo. Esta porcentagem pode variar de acordo com a renda média anual, ou pode ser fixa em uma dada porcentagem. Em alguns países, onde a prática da arrecadação de IR não é exercida, por meio de declaração, os tributos federais são arrecadados através de taxas repassadas aos produtos comercializados.

Na dúvida sobre qual método de tributação é o mais eficiente, o governo brasileiro acostumou-se a empregar todos os sistemas de arrecadação de impostos possíveis, resultando em 76 tributos repassados concomitantemente. Só no primeiro mês deste ano, foram arrecadados R$62,6 bilhões, mesmo sem CPMF. A estimativa é que as declarações somem outros R$150 bilhões até o final do prazo, em abril.

Inconformidades à parte, o brasileiro que vai preparar sua Declaração de Imposto de Renda se depara, ainda, com o verdadeiro Código Da Vinci da política econômica. Por mais hollywoodiana que seja a perspicácia do contribuinte, lamentavelmente, ele nunca saberá a razão de R$7500 pagos por ano em estudos, por exemplo, só valerem R$2500 para efeito de Imposto de Renda. Na prática, portanto, é como se os outros R$5000 não tivessem sido gastos, estando sujeitos à ambição do famoso “Leão”.

Com as modificações realizadas ano a ano, é cada vez mais comum os contribuintes recorrerem à empresas especializadas neste tipo de declaração. Logo, o profissional que ocupa todo o seu tempo garantindo o malabarismo de bancar os 76 tributos, ainda deve contar com o gasto de uma empresa para fazer a tal declaração. Dessa forma, declarar o IR, hoje, é atividade de alto risco, recomendada para profissionais. Isso previne que o contribuinte desenvolva dores de cabeça e problemas cardíacos.