Posts de Maio, 2008

Tapando o sol com a peneira

Maio 28, 2008

Existe um projeto em tramite no Brasil, e em outros paises emergentes chamado Um Laptop por Criança. Fomentado pelo Instituto Tecnológico de Massachusetts, o famoso MIT, e principalmente, pelo cientista americano Nicholas Negroponte, o OLPC – sigla em inglês – não tem cunho tecnológico, tampouco tem fins-lucrativos, como explica o site do projeto, apenas tenta fazer a criança “aprender a aprender”.
 
A idéia de difundir um novo formato para o deficitário ensino nacional, sem dúvidas, é extremamente positiva, especialmente em um país com tantos analfabetos, e analfabetos funcionais que não tem a oportunidade de buscar por um treinamento ao menos básico para sua formação.

Com tantas reclamações acerca do pouco investimento deste precário e fundamental setor para a nação, seria impróprio palpitar contra qualquer tipo de expressão favorável à melhorias no país, promovido por um órgão federal ou não.

Entretanto, como sempre, existe um porém. E neste caso, não está na concepção da idéia proposta, e sim, na maneira de como este será desenvolvido. Pelas informações adquiridas em pesquisas feitas pela Internet, e por veículos de comunicação, o chamado laptop aparenta ser imensamente aquém dos computadores encontrados atualmente.

Utilizando-se de tecnologias próprias, desenvolvidas ou adaptadas para o projeto, são pontos positivos o uso de softwares livres de qualquer tipo de despesa; os hardwares mais baratos que o habitual; e, mesmo que esquipático à primeira vista, o carregador movido à força humana, por meio de manivela, que permitem o quase irrisório preço proposto pelo projeto.

Mais uma vez, o ponto negativo não está na tentativa de possibilitar aos que nunca tiveram uma oportunidade de ensino finalmente consegui-los, mas na idéia de tentar vender a panacéia dos problemas da educação com um projeto que provavelmente não atingirá a totalidade do território brasileiro. Ou esses laptops também chegarão aos confins do Acre?

Ao invés de tentar melhorar o ensino com um projeto que afetará apenas a vida de alguns estudantes do eixo Sul-Sudeste, porque não um investimento na falida bibliografia utilizada atualmente, ou então, programas de capacitação do corpo docente? Pois nada adianta dar um computador nas mãos de uma criança que não sabem ler, que será instruída por um professor que não sabe ensinar. Se nenhuma das partes está habilitada, como será possível “aprender a aprender”?

A Amazônia é nossa

Maio 26, 2008

Ao procurar na internet por Amazônia, é muito comum encontrar várias imagens de livros americanos onde a Floresta é tida como reserva internacional, propriedade do mundo. Apesar da famigerada lenda urbana, sempre existiu o temor de alguém tentar dominar o pulmão do mundo para si.

Uma primeira citação oficial sobre o assunto saiu outro dia, quando fora publicado no famoso New York Times uma reportagem onde se perguntava de quem era este território, já que muitos paises, mesmo que nas entrelinhas, expressavam a idéia da Floresta pertencer a algo maior que as bordas nacionais.

Essa idéia, em condições normais, poderia ser levada em consideração, se por acaso, fosse levada em consideração a opinião sobre o dono da terra, no caso, o Brasil. Caso existisse consenso em relação à Amazônia, propondo uma melhoria internacional que abrangesse todos os paises, não teria problema nenhum.

Todavia, exemplificando, é a mesma coisa que alguém bata em sua porta e queira tomar posse da sala, por puro e simples capricho próprio. De um dia para o outro, toda a geografia da casa mudaria apenas para satisfazer a vontade de um estranho.

Como a opinião brasileira não foi levada em conta, é completamente infundada a idéia de dividir com o resto do mundo uma parte do território nacional a bel prazer de alguns lideres internacionais. Pois caso contrário, diversas outras partes do mundo também deveriam ser dividias igualmente. E é provável que não gostariam de dividir Manhattan, ou a Praça Vermelha.

A primeira opinião fundada sobre o assunto foi proclamada pelo atual presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, que apesar de suas incongruências, foi enfático ao responder ao periódico que a Amazônia tem dono. E tem mesmo, porque a Amazônia é nossa. 

A grande e confusa escolha

Maio 16, 2008

O Brasil pode ser palco dos mais diversos infortúnios existentes. Tantos fatores fundamentais para o trilhar de um próspero crescimento simplesmente inexistem, ou então são precários e falidos como a segurança, a saúde, e a já mencionada educação. Porventura em alguns aspectos o País seja realmente um lugar de apenas uma nota, todavia, em um quesito é preciso levar em conta a superioridade tupiniquim.

Ao menos em cada dois anos é possível, por menor que seja, sentir orgulho de vestir a camisa verde e amarela, em dias que presidentes não sabem de nada e dinheiro público desviado sai pelo ladrão.

Quando se fala de eleições por aqui, a tranqüilidade paira no semblante dos eleitores, pelo menos no que concerne aos eventos pós-votação. A escolha até pode ter sido errada, mas traduz exata e precisamente o desejo de sua população. E de maneira rápida e simples.

Enquanto isso, no lado superior do Atlântico, o mais respeitável de todos os paises entra em cataclisma toda vez que ouve essa palavra. E não é por menos. O sistema usado pelos Estados Unidos nas eleições beira à falta de lógica. Pode-se dizer que chega a ser vergonhosa a demora e falta de precisão de um pomposo País na hora de escolher seu representante. E falta de precisão essa que foi deliberadamente mostrada nas duas últimas edições, quando George W. Bush, o filho, derrotou, mesmo que de maneiras sombrias, Al Gore e John Kerry, em 2000 e quatro anos depois, respectivamente.

Não é possível afirmar que a situação se repita em novembro, e durante duas semanas os norte-americanos fiquem “sem um presidente”, seja Clinton, Obama, ou até mesmo McCain. Ainda assim, a obscuridade nas eleições americanas pode permitir saber apenas que, mais uma vez, um trabalho desnecessário tomará a cena em alguns meses.

Para se entender como funciona a escolha de seu presidente, é necessário o conhecimento de alguns fatores que explicitam neste sistema. Existem dois partidos fortes em terras americanas. De um lado os Republicanos, mais conservadores; do outro os Democratas, que nada têm a ver com o partido heterônimo brasileiro. Outros partidos menores, ou nanicos, se fazem necessários de citação, mas como o próprio nome diz, têm força quase nula no momento chave.

Como existem dois partidos, logo existem dois candidatos para concorrer à vaga na cadeira da alva casa localizada na avenida Pensilvânia. O problema está em como estes são escolhidos. Obrigatoriamente o aspirante a candidato precisa ter nascido no País, morar no mesmo há pelo menos 14 anos, e ter 35 anos no mínimo.

Tirando o trigo do joio, começam as primárias, ou seja, as eleições que escolhem os candidatos que vão concorrem nas eleições gerais de fim de ano. Para decidir quem serão os representantes, cada Estado usa sua legislação própria para estabelecer os parâmetros da decisão de voto.
 
Finalmente demarcados os candidatos, acontece em novembro a eleição final, mais complicada. Diferente do Brasil, o sistema adotado pelos Estados Unidos é o de Colégios Eleitorais. Em um primeiro ponto a população comum faz uma votação de acordo com suas pretensões, e em seguida uma nova eleição é feita, esta pelos chamados delegados, cargos responsáveis por apontar o vencedor naquele Estado, que não são obrigados a levar em consideração a decisão popular.

Para ganhar a eleição, o candidato deve ter a maioria dos votos feitos nos Colégios Eleitorais pelos delegados, ou ter 51% dos votos populares. Em um país de pequeno porte este sistema já seria confuso por si só. Agora, em um país com 50 Estados com suas escolhas próprias, o problema toma proporções bíblicas, visto a cada quatro anos.

Afinal, qual a necessidade em realizar uma eleição popular, se um “cartola” decide o futuro do país? E qual a necessidade em realizar uma eleição, se a escolha do povo não é necessariamente a escolhida? Deveriam simplesmente escolher um monarca para reinar nas terras do norte perpetuamente com seus asseclas.

A confusão na hora de escolher o presidente americano é tão grande, que é provável alguma informação aqui estar em discordância com os verdadeiros fatos. Entretanto, serve apenas para reforçar a tese sobre o bisonho sistema eleitoral adotado na terra do Tio Sam.

Berimbau de uma corda só

Maio 12, 2008

Se tem uma coisa que o já longínquo século XX mostrou, foi que educação é um dos pilares primordiais para o alicerce do desenvolvimento de um país. A história pode fornecer alguns exemplos notáveis, como Noruega, Coréia do Sul, Reino Unido… todos reconhecidos pela prosperidade e elevados padrões de vida, conquistados através da priorização da educação.

O tempo passou, algumas nações reconfiguraram padrões educacionais, mas o Brasil, este parece que não fez a sua lição de casa. Um episódio tragicomicamente claro da educação irresponsável empregada no País foi a divulgação dos resultados do Enade (Exame Nacional de Desempenho de estudantes). Além da conhecida deficiência no ensino superior, o resultado foi marcado pelas declarações do professor Antônio Dantas, coordenador do curso de medicina.

De acordo com o coordenador, o baixo aproveitamento da Universidade Federal da Bahia, UFBA, na avaliação, é reflexo de um índice de intelecto inferior dos baianos. Em entrevista à Folha de S. Paulo, o coordenador ainda utilizou-se de metáforas generalistas e depreciativas para ilustrar a sua justificativa: “o baiano toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais, não conseguiria”. Mais do que um patamar intrínseco de incapacidade racional, para Dantas, o problema é hereditário, e está enraizado na cultura baiana.

Em um País marcado por um sistema educacional desorganizado, protagonizado por professores mal pagos e alunos desmotivados, ressaltar que inteligência é fruto de herança genética é o mesmo que “enrolar a corda no próprio pescoço”. Mesmo com os avanços observados contra os índices de analfabetismo, que hoje permeiam 12%, o que se vê é uma legião de analfabetos funcionais. Não por uma questão política ou “hereditária”, mas sim, devido à fragilidade aguda do ensino público. Entretanto, ao que parece, há quem diga que o problema é o berimbau de uma corda só.

Para os alunos, semear um futuro promissor significa concluir os ensinos fundamental e médio em escola particular, para aí, então, ter chances nos vestibulares das melhores universidades. Para professores, um futuro promissor significa transformar a vida em um malabarismo constante, administrando dois ou três empregos, estudo e o lar. Entre alunos e professores, em índices absolutos, a hipótese de ensino público está completamente marginalizada ao progresso. Para alguns, no entanto, o problema é aqueles berimbaus que só vêm com uma corda.

Historicamente, educação e progresso caminham lado a lado. Isto não é privilégio de uma nação deitada em berço explêndido. A Coréia do Sul é um exemplo de estrutura universitária que, em uma geração, conseguiu instituir padrões rígidos e colher os frutos da prosperidade tecnológica. Nesta escala evolutiva, o que elevou a Coréia do Sul ao posto de “líder” dos países emergentes, sem dúvidas, foi revolução educacional. Os jovens permanecem 12 anos ou mais estudando, em regime integral, exclusos de quaisquer vínculos de trabalho. Será que no oriente os berimbaus têm mais de uma corda?

Tendo o berimbau uma corda, ou mais, o fato é que os mecanismos de avaliação de ensino parecem fadados a indicar a vocação do governo para gastar tempo e dinheiro. Enquanto nada realmente significativo for implantado, sobretudo no ensino fundamental, ainda teremos muitos coordenadores de curso de medicina culpando instrumentos musicais pela desqualificação de alunos.