
Se tem uma coisa que o já longínquo século XX mostrou, foi que educação é um dos pilares primordiais para o alicerce do desenvolvimento de um país. A história pode fornecer alguns exemplos notáveis, como Noruega, Coréia do Sul, Reino Unido… todos reconhecidos pela prosperidade e elevados padrões de vida, conquistados através da priorização da educação.
O tempo passou, algumas nações reconfiguraram padrões educacionais, mas o Brasil, este parece que não fez a sua lição de casa. Um episódio tragicomicamente claro da educação irresponsável empregada no País foi a divulgação dos resultados do Enade (Exame Nacional de Desempenho de estudantes). Além da conhecida deficiência no ensino superior, o resultado foi marcado pelas declarações do professor Antônio Dantas, coordenador do curso de medicina.
De acordo com o coordenador, o baixo aproveitamento da Universidade Federal da Bahia, UFBA, na avaliação, é reflexo de um índice de intelecto inferior dos baianos. Em entrevista à Folha de S. Paulo, o coordenador ainda utilizou-se de metáforas generalistas e depreciativas para ilustrar a sua justificativa: “o baiano toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais, não conseguiria”. Mais do que um patamar intrínseco de incapacidade racional, para Dantas, o problema é hereditário, e está enraizado na cultura baiana.
Em um País marcado por um sistema educacional desorganizado, protagonizado por professores mal pagos e alunos desmotivados, ressaltar que inteligência é fruto de herança genética é o mesmo que “enrolar a corda no próprio pescoço”. Mesmo com os avanços observados contra os índices de analfabetismo, que hoje permeiam 12%, o que se vê é uma legião de analfabetos funcionais. Não por uma questão política ou “hereditária”, mas sim, devido à fragilidade aguda do ensino público. Entretanto, ao que parece, há quem diga que o problema é o berimbau de uma corda só.
Para os alunos, semear um futuro promissor significa concluir os ensinos fundamental e médio em escola particular, para aí, então, ter chances nos vestibulares das melhores universidades. Para professores, um futuro promissor significa transformar a vida em um malabarismo constante, administrando dois ou três empregos, estudo e o lar. Entre alunos e professores, em índices absolutos, a hipótese de ensino público está completamente marginalizada ao progresso. Para alguns, no entanto, o problema é aqueles berimbaus que só vêm com uma corda.
Historicamente, educação e progresso caminham lado a lado. Isto não é privilégio de uma nação deitada em berço explêndido. A Coréia do Sul é um exemplo de estrutura universitária que, em uma geração, conseguiu instituir padrões rígidos e colher os frutos da prosperidade tecnológica. Nesta escala evolutiva, o que elevou a Coréia do Sul ao posto de “líder” dos países emergentes, sem dúvidas, foi revolução educacional. Os jovens permanecem 12 anos ou mais estudando, em regime integral, exclusos de quaisquer vínculos de trabalho. Será que no oriente os berimbaus têm mais de uma corda?
Tendo o berimbau uma corda, ou mais, o fato é que os mecanismos de avaliação de ensino parecem fadados a indicar a vocação do governo para gastar tempo e dinheiro. Enquanto nada realmente significativo for implantado, sobretudo no ensino fundamental, ainda teremos muitos coordenadores de curso de medicina culpando instrumentos musicais pela desqualificação de alunos.
Maio 12, 2008 às 6:42 pm |
O problema é que alguns dos nossos acadêmicos, assim como os políticos, tomam a população por si mesmos. Se o digníssimo coordenador de medicina só é capaz de tocar berimbau, o problema é dele, mas ele precisa saber quem tem muita gente que também toca guitarra, bateria e violino e sabe mais do que ele. A questão mais grave da educação brasileira é a base, mas quando os poucos que conseguem chegar ao ensino superior encontram “profissionais” como Dantas, o desânimo é tanto quanto o das crianças sem professores no ensino fundamental.
Maio 12, 2008 às 6:55 pm |
Apesar do comentário infeliz do professor, admiro os baianos que vivem em harmonia com a música e conseguem extrair som de uma corda conectada a uma cabaça e um chocalho preso nos dedos! E com essa simplicidade enfileiram fãs pelo mundo afora. Eu nem isso consigo! Socorro! Preciso de um professor de berimbau URGENTE! Agora, que tem muito Dr. formado em grandes centros receitando aspirina para tudo e dizendo apenas “é uma virose que está solta por aí”…
Maio 12, 2008 às 6:59 pm |
Leonardo,
Gostei muito de seu texto sobre educação. Mas gostaria de fazer duas ressalvas e uma sugestão. As ressalvas: 1) cuidado ao comparar o Brasil com os demais países, apontando a educação como fator primordial de desenvolvimento. A educação não tem este poder. O desenvolvimento tem que estar apoiado em infra-estrutura, que engloba várias áreas. 2) No caso da Coréia do Sul, o resultado é fruto de investimento maciço na educação de base e , posteriormente, no ensino superior. Se olharmos a educação de forma isolada, o que é um risco, temos que pensar em ensino fundamental. E não começar pela outra ponta, como o Brasil ensaiou agir em algumas ocasiões. A sugestão: leia o blog da psicóloga Rosely Sayão sobre o caso do professor de Medicina. O texto dela é ótima e dialoga com o seu. O blog está hospedado na UOl. Grande abraço!!!!
Maio 12, 2008 às 8:35 pm |
Olá, Marcão.
Primeiro, muito obrigado pelo comentário. Verei o blog que me indicaste. Quanto às ressalvas, concordo plenamente quando dizes que um reforma na educação passa, primeiro, no ensino fundamental, tanto que disse isso na conclusão do texto. Quanto à importância da educação no desenvolvimento de um país, acredito que este, sim, um dos principais pilares para o progresso, como disse no texto. Limitei-me a falar só dele, porque comentar os outros demandaria praticamente um TCC.
Abraço Marcão, e obrigado pela visita!
Maio 12, 2008 às 10:37 pm |
Leonardo, caro,
desta vez e há muito tempo, não mais o confundo com o Leandro da sua turma da universidade, que também é um redator porreta. Parabéns em botar a cara para bater e escrever sobre um assunto tão espinhoso e fascinante como o sistema educacional no Brasil e suas relações com a idéia de desenvolvimento econômico, político e social. O assunto é bastante complexo e colega Marcão apontou alguns caminhos menos trepidantes. De qualquer modo, a inciativa é excelente. Parabéns.