Posts com Tag ‘criança’

A droga chamada futebol

Novembro 7, 2008

081107-02

Era uma vem um jovem de nome João. Ou Antônio, ou José, ou Fernando. Era uma vez um jovem sem perspectivas, vivendo um dia após o outro. Sua família não dispunha de recursos para facilitar dos agouros que a vida proporcionava, e tinha como meta apenas passar de ano na escola. Certo dia o pequeno João, ou Antônio, ou José, ou Fernando, no pátio de seu colégio conheceu uma droga viciante chamada futebol, que levou o petiz a experimentá-la durantes horas, dias e anos, ocupando a maior parte do seu crescimento. Pequeno João, ou Antônio, ou José, ou Fernando percebeu com o cair das folhas sua excelência naquele vício. Tanto que seu pai, um agricultor, ou vendedor, ou lixeiro, ou professor, logo o inscreveu numa escola especial, especial para garotos viciados nesse mesmo tipo de droga.

Durante algum tempo a escola aprimorou as técnicas do já adolescente viciado, e num dia como qualquer outro disse que nada mais podia ensinar. Sorte sua que nesses anos amizades foram criadas nesta escola, como um senhor que prometeu abrir novas portas para seu futuro, levando-o para uma vida melhor. Experiência e técnica o jovem já tinha, faltava apenas essa chance de mostrar seu talento pelos quatro cantos do país.

O já não tão pequeno João, ou Antônio, ou José, ou Fernando teve sucesso em sua nova empreitada, graças à ajuda de seu suposto novo amigo. E nessa nova oportunidade ele cresceu como as árvores que seu pai plantava quando era pequeno, de tal maneira que transcendeu sua própria capacidade de praticar o vício que lhe acompanhava durante todo esse tempo. Anos após aportar nesse novo momento de vida, o suposto amigo trouxe uma nova pessoa, que falava uma língua estranha, e prometia todo o ouro de Eldorado para o talentoso rapaz. Ouro que o pequeno João, ou Antônio, ou José, ou Fernando jamais poderia ter imaginado numa vida normal sem a droga chamada futebol, que possibilitou ao pequeno garoto sem perspectivas na vida rumar novos mares. Mares que ele não conhecia. E assim foi João, ou Antônio, ou José, ou Fernando, que agarrou a única oportunidade da vida, e virou mais um no grande êxodo que existe no cenário nacional atualmente.

Tapando o sol com a peneira

Maio 28, 2008

Existe um projeto em tramite no Brasil, e em outros paises emergentes chamado Um Laptop por Criança. Fomentado pelo Instituto Tecnológico de Massachusetts, o famoso MIT, e principalmente, pelo cientista americano Nicholas Negroponte, o OLPC – sigla em inglês – não tem cunho tecnológico, tampouco tem fins-lucrativos, como explica o site do projeto, apenas tenta fazer a criança “aprender a aprender”.
 
A idéia de difundir um novo formato para o deficitário ensino nacional, sem dúvidas, é extremamente positiva, especialmente em um país com tantos analfabetos, e analfabetos funcionais que não tem a oportunidade de buscar por um treinamento ao menos básico para sua formação.

Com tantas reclamações acerca do pouco investimento deste precário e fundamental setor para a nação, seria impróprio palpitar contra qualquer tipo de expressão favorável à melhorias no país, promovido por um órgão federal ou não.

Entretanto, como sempre, existe um porém. E neste caso, não está na concepção da idéia proposta, e sim, na maneira de como este será desenvolvido. Pelas informações adquiridas em pesquisas feitas pela Internet, e por veículos de comunicação, o chamado laptop aparenta ser imensamente aquém dos computadores encontrados atualmente.

Utilizando-se de tecnologias próprias, desenvolvidas ou adaptadas para o projeto, são pontos positivos o uso de softwares livres de qualquer tipo de despesa; os hardwares mais baratos que o habitual; e, mesmo que esquipático à primeira vista, o carregador movido à força humana, por meio de manivela, que permitem o quase irrisório preço proposto pelo projeto.

Mais uma vez, o ponto negativo não está na tentativa de possibilitar aos que nunca tiveram uma oportunidade de ensino finalmente consegui-los, mas na idéia de tentar vender a panacéia dos problemas da educação com um projeto que provavelmente não atingirá a totalidade do território brasileiro. Ou esses laptops também chegarão aos confins do Acre?

Ao invés de tentar melhorar o ensino com um projeto que afetará apenas a vida de alguns estudantes do eixo Sul-Sudeste, porque não um investimento na falida bibliografia utilizada atualmente, ou então, programas de capacitação do corpo docente? Pois nada adianta dar um computador nas mãos de uma criança que não sabem ler, que será instruída por um professor que não sabe ensinar. Se nenhuma das partes está habilitada, como será possível “aprender a aprender”?

A quintessência inexorável

Abril 17, 2008

Com nove anos de idade uma criança não tem responsabilidades ou preocupações. Ela não se angustia quando o dólar está em alta; quando territórios alheios são invadidos a bel prazer; ou quando o proeminente índice de violência que permeia nosso país atinge níveis tão abruptos. O bom desta idade é se preocupar apenas com a vitória no jogo do fim de semana e com a prova do dia seguinte.

A vida de um petiz é basicamente se divertir na maior parte do tempo, não possuindo empecilhos para seus devaneios pessoais, e aproveitar bem esse exíguo tempo livre dos grilhões das obrigações que incendeiam qualquer pessoa com mais de 20 anos.

Que atire a primeira pedra o jovem que nunca mentiu para faltar à escola, acreditando que este era o maior de todos os pecados capitais. Bela essa época, onde o infante intersecta o real do imaginário, a mentira do faz de conta; e não tem noção de seus atos. Afinal, está é a quintessência da juventude, e é sua obrigação ser inocente.

Em qualquer parte do mundo é completamente normal que uma criança faça de seu cotidiano um amálgama de práticas comuns de sua idade, além de não possuir capacidade cognitiva para reconhecer e entender os conceitos mais complexos que a vida nos proporciona. Menos em um lugar.

Com quase um décimo da população brasileira, e um sistema sócio-cultural espantosamente intrínseco, o Iêmen é uma dessas exceções às regras, que porfiam nos mais distantes confins do planeta.

Foi noticiado nesta semana pelos diversos veículos da mídia internacionais o caso da iemenita Nayud Mohamad Naser, que como qualquer outro casal, teve a permissão concedida por um tribunal local a realizar seu divorcio matrimonial. Apenas para entender, a jovem tem 8 anos de idade, e fora forçada a se casar pelo pai.

O absurdo não está na gritante aceitação, mesmo que tardia, da separação entre as partes do casal, mas sim na funambulesca incongruência em saber que tal falta de bom senso ainda existe nessa região. O absurdo está em saber que uma criança sem completar uma dúzia de primaveras foi obrigada, pelo seu gerador e o inepto ‘marido’, a realizar um dos mais antigos vínculos sociais da humanidade, sem ao menos ter idéia de sua importância e peso para a própria vida futura. O absurdo está em saber que em pleno século XXI, após o suposto fim do mundo, segundo Nostradamus, tão retrogradas legislações nacionais ainda insistem em retinir na retumbância de certos lugares.

A idéia neste momento não é ser xenófobo, ou apontar de fora os problemas que o país vive. Claro que são tradições, culturas e realidades completamente diferentes das brasileiras, e seria extremamente etnocêntrico bradar contra as instituições doutrinárias daquele lugar, sobrepujando suas questões de certo e errado; todavia, o bom senso transcende os limites geográficos, e deve ser aplicado por qualquer pessoa que se julgue inteligente o suficiente para distinguir o azul do vermelho.

A inocência lúdica talvez seja o pingo de facécia remanescente neste oceano que é o mundo moderno, e é dever do homem não permitir a reminiscência do vestígio de sua existência.

Pisando em cacos de vidro

Abril 5, 2008

 

Diz um adágio que precisamos tomar cuidado onde pisamos. E isto vale para tudo, e para todos. O poder da informação para muitos está aquém do que realmente representa, inclusive para alguns colegas da imprensa.

No foco de todos os veículos de comunicação desde a última semana, o caso da jovem Isabella chocou todo o país com a infelicidade acontecida. Encontrada ainda viva no jardim do prédio onde morava, a menina não resistiu após os cuidados médicos iniciais.

É uma verdade indubitável a necessidade em divulgar e informar tal tragédia a toda população nacional, porém, deve-se tomar cuidado, e muito cuidado, para não atravessar a tênue linha entre informar e julgar.

Não tenho poder, muito menos, capacidade em acusar o responsável pelo acontecido. Tampouco me utilizo deste espaço para defender os pais da jovem, atuais acusados pelo caso. Apenas acredito que é de suma importância tomar cuidado nas palavras e imagens que são usadas no momento de alertar os espectadores.

Sem entrar em nomes, pelo que foi possível acompanhar, de maneira empírica, alguns veículos prejulgam, e acusam, antes da solução do caso os responsáveis pela morte da jovem, alardeando de maneira até pejorativa os pais de Isabella.

Mais uma vez, de maneira alguma faço o papel de advogado defendendo-os, até porque não sou discente em direito, e sim de jornalismo, mas o cuidado com este caso é fundamental para o próprio jornalismo brasileiro.

A morte de Isabella foi uma tragédia, e não existe pessoa no mundo que possa dizer o contrário, porém, a imprensa nacional deve ter um zelo além do normal na averiguação das informações, não as transformando em julgamento público sem chance de defesa. Pois o caso da Escola Base ainda pulula na memória de muitos.