
Uma coisa é certa, sempre que alguém recebe uma carta de banco, coisa boa não é. Pelo menos nunca na história desse país soube-se que uma pessoa recebeu algum prêmio ou coisa semelhante por meio de um telegrama bancário. É tiro e queda para qualquer um, chega um envelope com o brasão timbrado de qualquer agência financeira e logo vem problema.
Recebida a cartinha, a primeira iniciativa de uma pessoa é ligar na famigerada central de atendimento ao consumidor, que ideologicamente deveria servir como amenizador das burocracias que permeiam o sistema bancário e todos são obrigados a passar. No momento que a ligação é atendida, começa a primeira grande batalha. Obrigado a repetir seus dados milhares de vezes, não existe ser humano não fique perdido no meio de tantos gerúndismos e discursos robóticos proferidos pelos atendentes de telemarketing. Depois de muita angústia e tempo pendurado ao telefone, muitas vezes arcado pelo próprio cliente, é descoberto que apenas a presença física na agência, seja ela onde for, resolverá os tramites que impedem o cliente de seguir sua vida.
Ai começa a segunda grande batalha. O ato que faz tremer as pernas de onze em dez pessoas em todo o mundo. Ir ao banco. Não adianta, mesmo com as confortáveis poltronas disponíveis, sempre em número aquém do necessário; e o poderoso sistema de ar-condicionado, a tentativa de transformar a instituição em um local aconchegante falham peremptoriamente, já tudo vai a baixo quando é vista a fila. Não importa qual, nem sua função, banco que não tenha fila não pode ser considerado banco. Outrora vistos como grandes sistemas financeiros, salvadores do dinheiro popular, os bancos hoje em dia sofreram uma grande inversão de valores, já que dentro de seus imensos átrios não mais que uma dúzia de pessoas componham sua equipe, todos capacitados, na teoria, a resolver qualquer dúvida que venha surgir com um cliente. Na teoria, pois tudo no banco funciona na teoria. Na teoria o cliente não paga taxas absurdas, não fica mais que 15 minutos na fila, e não encontra dificuldades para encontrar seu gerente.
Estes que se escondem em uma pequena mesa, geralmente centralizados no ambiente, resguardado por uma máquina de senha. Quando qualquer problema oriundo das hipotéticas cartas supracitadas ocorre, é esta pessoa a salvação da lavoura, o homem que provavelmente resolverá seja lá qual for o empecilho. Na teoria também.
Esta disposição demonstra o quão interessada uma instituição financeira, não importa qual seja, está com seu cliente, já que são tratados como meros números de um sistema infinito, e na realidade são os grandes responsáveis pela injeção de capital nas engrenagens que formam a máquina bancária. Concomitantemente, enquanto o cliente é jogado às traças, o superávit atinge padrões recordes a cada dia, exibindo o verdadeiro objetivo de lucrar incessantemente com a conivência do Estado, as custas dos operários que fomentam a função fulcral de um banco.
Apesar de todas falhas apontas, é ainda mais ultrajante ver aqueles que repreendem um cliente ou outro, que cumprem seu papel e exigem por seus direitos, por mais utópico que a tentativa possa parecer. Em relação à sua clientela o sistema bancário, apesar dos milhões investidos em publicidade, está falido; e, resta apenas nos ombros daqueles que realmente sabem o valor do dinheiro saber investir o seu. Por que, sem dúvida, os bancos sabem investir o deles, caso contrário o Itaú não teria um boçal lucro de 8 bilhões de reais.


